Ao estudar as relações sociais e políticas, diversos autores defendem a tese de que no mundo contemporâneo os indivíduos deixam de ser cidadãos e passam a se relacionar com o mundo como consumidores. Os processo de globalização econômica e suas conseqüências políticas e culturais acarretam essa transformação. Para o sociólogo Octavio Ianni, “há situações e momentos nos quais as determinações econômicas adquirem preeminência, tornam-se particularmente visíveis, decisivas. Mas sempre levam consigo implicações sociais, políticas e culturais”.
O autor Néstor Garcia Canclini, em seu livro Consumidores e Cidadãos, coloca que em decorrência desse processo, baseado nos modelos econômico e político neoliberais, fortalece os meios de comunicação de massa como principal fonte de consumo da maioria da população. Como colocado, o debate público, em sua grande parte, acaba sendo mediado pelos meios de comunicação de massa, esses tornam-se os espaços públicos das sociedades globalizadas. Assim, os espaços públicos de debate estão sendo substituídos por espaços privados. O acesso aos bens culturais e simbólicos, resultados do processo de abertura das fornteiras nacionais, “não vêm junto a um exercício pleno e global da cidadania. O processo de globalização vem acompanhado de um cresecente desinteresse pelos espaço e debate público e pela participação política. Se analizarmos alguns fenômenos de nossa sociedade é possível entender facilmente isso", explica Canclini.
É importante notar que consumo aqui não é visto apenas como o ato de aquisição de produtos, mas o ato de consumir envolve “processos socioculturais mais amplos, onde se dá sentido e ordem à vida social e onde se constroem as identidades no mundo pós-moderno”.
Como os espaços públicos de debate estão sendo privatizados (por serem mediados pelos meios de comunicação de massa), a política passa a ser submetida pelas regras do comércio e da publicidade; sendo transformada em algo que se consome e não que se participa. A política está submetida à mídia. “A participação ficaria restrita, cada vez mais, a uma elite tecnológico-econômica, detentora dos espaços decisórios e, por isso mesmo, apta a consumir e produzir produtos culturais mais sofisticados, enquanto a massa se conforma em apenas ser “cliente”.
A subordinação da política à mídia leva ao enfraquecimento das entidades e organizações políticas anteriores a esse processo (sindicatos, partidos, manifestações públicas, movimentos sociais, Estado etc). O geógrafo brasileiro Milton Santos também escreve nesse sentido.
Assim, coloca-se um desafio para a cidadania e seu exercício. É imprescindível buscar um modelo de civilidade que não se subordine apenas ao modelo econômico, mas que oriente a ação política e reconstrua a solidariedade social, à qual deveriam estar subordinados o modelo econômico e todos os demais.
As tecnologias da informação, assim como os processos educacionais, adquirem papel central na transposição desse desafio. Ora, se os meios de comunicação de massa são o espaço de debate público e a internet é um meio de comunicação de massa, ela também passa a ser um espaço de debate público, mas com uma grande diferença: é um meio, potencialmente, mais democrático. É um meio de mão dupla, com as ferramentas adequadas é possível questionar em tempo real a informação transmitida, ou mesmo gerar novas informações e transmití-las em outro espaço.
Apropriar-se das linguagens e ferramentas que envolvem a sociedade da informação é, portanto, uma forma de interferir no processo de privatização do espaço público e portanto da participação política. Nesse sentido os projetos de inclusão digital são potenciais espaços para a ação cidadã.